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TEXTOS

Habitar a matéria: Percurso da trama (2023)

A escolha realizada para a composição da obra “Habitar a matéria:Percurso da trama” surge a partir do momento em que noto a presença dos tecidos no cotidiano, despertando o desejo de trabalhar com a fibra, um material cujas propriedades físicas, possui um condição a ser tracionável, comprimível, além de ter a consistência de dureza e maleabilidade. Pois estaria como diz (Bachelard p.15) “no imenso campo das experiências intermediárias”. Trata-se, portanto, de um trabalho que vai se realizando na medida que essa ação repetitiva imposta pela fatura vai reconhecendo e explorando as potencialidades do material no ato do fazer, no caso do tecer. Tal processo tensiona fibras, tanto as do tecido da malha, como a da musculatura e tendões do corpo que estão envolvidos neste processo, pois a criação das tramas tem laços estreitos nas punções do corpo, que são realizadas continuamente. O ponto a ponto é incorporado no processo uma vez que os nós são feitos ao longo do tecido, dando origem às colunas de tecelagem que surgem pela coincidência.

Por ser um processo manual não se pode anular a presença do ofício artesanal, que segundo Richard Sennett “Todo ofício artesanal, com efeito, tem algo desse caráter impessoal”. Com isso pretendo estabelecer a relação da prática artesanal com a prática artística, já que durante o processo me encontro no meio dessas relações, por ser um trabalho técnico, intuitivo e mecânico que em muitos momentos associa-se a esse aspecto comum.

Desse modo pode-se dizer que não é possível produzir tecelagem sem o movimento repetitivo e mecanizado; em suma: sem a prática não existiriam as peças. Sua estrutura cilíndrica só se dá por conta da tensão e do peso que o nó feito com fio malha tem sobre a urdidura disposta no tear. Assim, o atual objeto se dá por meio dos movimentos, observações e sensações, sendo uma peça que necessita essencialmente da experiência tátil, sensorial e de percurso. Ou seja, para ter uma experiência total da obra, é necessário entrar em seu interior.

Ao entrar em seu interior, a obra busca também consagrar um espaço,a partir do momento que se desenha em função de um ritual, cuja questão é amplamente discutida pelo teórico da arquitetura Bruno Zevi em seu livro “Saber ver Arquitetura”. Dessa forma, este projeto buscou a particularidade da essência da arquitetura exposta pelo autor, pois para se pensar em lugar é necessário entender os limites a esta liberdade delimitada que se encontra entre as paredes.

A obra transforma o espaço naquilo para que ele vai ser, pois todo espaço é profano e no momento que a obra se apropria desse local surge a criação dos vazios internos e externos e é nesta divisão que o sagrado revela-se, no momento em que os segredos mais íntimos são compartilhados, e consagrados com o coletivo. Utilizando referências como partenon, por ser um edifício misterioso que não é pensado em acolher o ser humano e sim como um espaço sagrado.

Desse modo a demarcação de território, e o desenho de um espaço e de tempos únicos também faz com que o sagrado se manifeste. Partindo desse pensamento, formalizo o espaço em que a obra habita, como um rito ao observador, para consagrar a matéria. O gesto de entrar e caminhar entre as colunas trata-se de um ritual e de uma consagração de um lugar, que passará a ser dele no momento que estiver no seu interior.

Portanto, espaço, corpo e movimento são fatores presentes que compõem a obra, pois o corpo humano será a base para uma experiência total do local construído, ou seja, o trabalho propõe intensificar o movimento do observador diante da matéria macia. Utilizando desse pensamento como elemento principal para a criação de um espaço sagrado, que está situado, organizado e habitado pelos corpos fibrosos de tecelagem.

Entre Fios (2023)

A obra “Entre fios”ganha corpo por meio da junção de diferentes técnicas de entrelace. Para a formação da obra foi utilizada a técnica de tecelagem, criando corpos fibrosos com fio de malha branco. O trabalho é composto por quatro esculturas, cuja a formação da sua estrutura só se dá por conta da tensão e do peso que o fio de malha tem sobre a urdidura disposta no tear. Essa propriedade flexível que o material dispõe, permite uma infinidade de junções por entrelaçamento.

O impulso por produzir peças com tecelagem vem das minhas imagens internas, memórias, de ver a minha avó produzindo peças a partir dessas técnicas de entrelace de fios. Observava todo o gesto, cuidado e paciência que ela tinha ao desenvolver os objetos. Então quando me deparo produzindo, a sensação tátil e a duração de tecer é algo que não se cessa, é algo que se expande e que está sempre nesse lugar da experimentação.

A criação de esculturas, desperta a questão da ancestralidade e da habitação dos tecidos no cotidiano, que nos acompanham todos os dias, durante toda a vida. O trabalho manual realizado se inicia por um movimento de corpo, pelo o encontro do polegar com o indicador (movimento pinça) um gesto ancestral e intuitivo que é ativado na infância. Então, a partir dos movimentos repetitivos que o processo propõe, observo que o corpo será a base que me aproxima da individualidade da matéria seguindo de uma meditação sobre a noção de beleza da matéria. De acordo com Gaston Bachelard a matéria "No sentido do impulso, surge como uma força incrível, como um milagre. Em ambos os casos, a meditação de uma matéria educa uma imaginação aberta” (BACHELARD, 1998).

LAURA DEL'ACQUA

laud.g 

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